Uma revelação do Ser · Parte 3 · A volta para casa

3.1

Espiritismo

Se você já conhece a história do Espiritismo, fique à vontade para pular este capítulo. No capítulo seguinte eu apresento a visão do Espiritismo sobre nossa essência e trago uma passagem curiosa e interessante de Kardec na Revista Espírita sobre o assunto.

As mesas que giravam#

Em 31 de março de 1848, numa casa de madeira em Hydesville, no interior do estado de Nova York, duas meninas da família Fox anunciaram que conseguiam conversar com as batidas que vinham das paredes. Elas faziam uma pergunta, e as batidas respondiam.

A notícia atravessou os Estados Unidos, e depois o oceano.

Em 1853, nos salões de Paris, a moda era uma coisa que ninguém sabia explicar: mesas que se moviam, se inclinavam e batiam com o pé no chão. E que, interrogadas, respondiam. Uma pancada para sim, duas para não. Depois, o alfabeto inteiro, letra por letra.

Para quase todo mundo, aquilo era passatempo depois do jantar.

Para um professor de cinquenta anos, acabou sendo a pergunta da vida.

O professor de Lyon#

Hippolyte Léon Denizard Rivail nasceu em Lyon, na França, em 3 de outubro de 1804.

Estudou na Suíça, em Yverdon, no instituto de Johann Heinrich Pestalozzi, um dos pedagogos mais influentes da época, que defendia que a criança aprende observando e raciocinando, e não decorando. O aluno levou o método para a vida inteira.

Em Paris, Rivail foi educador. Fundou uma escola, deu cursos gratuitos, escreveu livros didáticos de gramática, aritmética e pedagogia. Casou-se em 1832 com Amélie Gabrielle Boudet, também professora, que o acompanharia em tudo o que viria depois.

Era um homem de método. E, como todo homem de método, desconfiava do que não podia examinar.

Em 1854, um conhecido, o magnetizador Fortier, contou-lhe que as mesas, além de girar, falavam. A reação de Rivail foi a de quem passou a vida ensinando a raciocinar: só acreditaria quando visse. E quando lhe provassem que uma mesa tinha cérebro para pensar e nervos para sentir.

Perguntas e respostas#

Em maio de 1855, Rivail viu os fenômenos pela primeira vez, na casa de madame de Plainemaison, em Paris. As mesas se moviam. Mas o que lhe interessou foi outra coisa: as respostas tinham conteúdo.

Pouco depois, passou a frequentar as reuniões da família Baudin, onde as duas filhas da casa, Caroline e Julie, ainda adolescentes, serviam de médiuns. As comunicações vinham por uma cesta com um lápis preso, que escrevia sobre o papel.

Até ali, as reuniões eram de curiosidade: perguntas sobre o futuro, assuntos de família e diversão. Rivail começou a levar outra coisa. Levava perguntas escritas, preparadas em casa, sobre Deus, a alma, a vida depois da morte, a origem do mal. E anotava as respostas.

Ao mesmo tempo, amigos que sabiam do seu interesse lhe entregaram cerca de cinquenta cadernos de comunicações recebidas em outros grupos, reunidas ao longo de anos.

O professor fez com aquele material o que sabia fazer: organizou, comparou, separou o que se repetia do que se contradizia. E percebeu que, por médiuns diferentes, em lugares diferentes, que não se conheciam, as respostas sobre as questões fundamentais concordavam.

Esse cruzamento virou o critério de todo o trabalho que veio depois. Uma comunicação isolada, por mais bela que fosse, não bastava. O que valia era o ensino que se repetia em muitos lugares, por muitos médiuns. Ele chamaria isso de controle universal do ensino dos Espíritos.

Allan Kardec#

Numa daquelas reuniões, segundo o relato que ficou, um Espírito contou a Rivail que os dois haviam se conhecido numa vida anterior, na Gália dos druidas, quando ele se chamava Allan Kardec.

Rivail adotou o nome.

O motivo era prático, e era também uma escolha de fundo. O professor Rivail tinha uma obra pedagógica conhecida, e não queria que ela emprestasse autoridade ao livro novo, nem que o livro novo fosse lido como opinião de um professor. Um nome novo para uma obra que, segundo ele, não era sua.

Este livro, assinado com um pseudônimo, tem uma simpatia especial por essa escolha.

O Livro dos Espíritos#

Em 18 de abril de 1857, chegou às livrarias de Paris O Livro dos Espíritos.

A página de rosto já dizia como ele devia ser lido: os princípios da doutrina, segundo os ensinos dados pelos Espíritos superiores, com o concurso de diversos médiuns, recebidos e coordenados por Allan Kardec.

Recebidos e coordenados. Não escritos.

O formato era o das reuniões: pergunta e resposta. A primeira edição trazia 501 questões. A segunda, de 1860, revista e ampliada, chegou a 1.019, e é nela que se baseiam as edições de hoje.

Entre as respostas, Kardec intercala comentários seus. Vale guardar essa distinção, porque ela vai importar: uma coisa é o que o livro atribui aos Espíritos, outra é a observação do codificador.

Na introdução, ele inventou uma palavra para nomear o que estava apresentando. "Espiritualismo" já existia, e significava apenas o contrário de materialismo. Para a doutrina que se apoia na comunicação com os Espíritos, propôs um nome novo: Espiritismo.

A codificação#

O livro esgotou. Kardec não parou.

Em 1º de janeiro de 1858, lançou a Revista Espírita, que dirigiria todos os meses por onze anos, como um diário público da pesquisa. Em abril do mesmo ano, fundou a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas.

Vieram depois os outros quatro livros que, com o primeiro, formam o que se chama de codificação:

  • O Livro dos Médiuns, em 1861, sobre os fenômenos e a prática mediúnica;
  • O Evangelho Segundo o Espiritismo, em 1864, sobre o ensino moral de Jesus;
  • O Céu e o Inferno, em 1865, sobre a justiça divina e a vida depois da morte;
  • A Gênese, em 1868, sobre a criação, os milagres e as predições.

Kardec morreu em Paris em 31 de março de 1869, aos sessenta e quatro anos, em meio aos preparativos de uma mudança. Está enterrado no cemitério do Père-Lachaise, sob um dólmen de pedra, à maneira dos druidas cujo nome adotou.

Na pedra, uma frase resume a doutrina inteira:

"Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sem cessar, tal é a lei."

Do outro lado do oceano#

Na França, o Espiritismo perdeu força nas décadas seguintes. Foi do outro lado do Atlântico que ele criou raízes.

Chegou ao Brasil ainda durante a vida encarnada de Kardec. Em 1865, na Bahia, foi fundado o primeiro grupo espírita do país. Em 1884, no Rio de Janeiro, a Federação Espírita Brasileira.

O Brasil se tornou o país com mais espíritas do mundo, e deu à doutrina um traço que ela já trazia desde Kardec, mas que aqui virou marca: a caridade. Centros espíritas pelo país inteiro mantêm creches, abrigos, distribuição de alimentos e atendimento gratuito. A máxima que sustenta tudo isso está n'O Evangelho Segundo o Espiritismo: fora da caridade não há salvação.

E foi o Brasil que deu ao Espiritismo a sua figura mais conhecida. Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier, nascido em Pedro Leopoldo, Minas Gerais, em 1910, psicografou mais de quatrocentos livros ao longo de setenta anos, e não ficou com nada dos direitos autorais: doou todos.

A frase que abre este livro é dele.

O que o Espiritismo propõe#

Kardec descreve o Espiritismo como uma ciência de observação e, ao mesmo tempo, uma doutrina filosófica, com consequências morais.

Os pilares cabem numa lista curta:

  • Deus, a inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas;
  • a imortalidade do espírito, que sobrevive ao corpo e conserva a sua individualidade;
  • a reencarnação, as muitas vidas pelas quais o espírito aprende e progride;
  • a comunicabilidade entre os vivos e os que já partiram;
  • a pluralidade dos mundos habitados;
  • a lei de causa e efeito, pela qual cada um colhe o que semeia;
  • o progresso, como destino de todos, sem exceção.

E há uma atitude que atravessa a obra inteira e talvez seja a herança mais preciosa de Kardec: a fé que não tem medo de pensar. Ele não pediu que ninguém acreditasse. Pediu que examinassem.

É com esse espírito que vamos agora abrir a codificação e procurar nela a resposta à pergunta deste livro.

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