Uma revelação do Ser · Parte 1 · A tese
1.5
A natureza humana
Antes de responder o que é a natureza humana, vale combinar o que estamos perguntando. A palavra "natureza" carrega mais coisa do que parece.
Ela vem do latim natura, de natus: nascido. A natureza de algo é o que já vem com ele — o que não foi escolhido, aprendido, conquistado nem construído. É o que a coisa é antes de fazer qualquer coisa.
Quando, no dia a dia, falamos sobre a natureza humana, soltamos frases que não dizem respeito à definição real de natureza.
Já ouvimos frases como:
"É da natureza humana ser egoísta."
"Errar é humano."
"Ninguém é perfeito."
Embora pareça, frases assim não descrevem a nossa natureza. Elas descrevem o nosso comportamento.
Essas frases são um resumo do que as pessoas costumam fazer, equivocadamente apresentadas como sentença sobre o que as pessoas são.
O que você faz é diferente do que você é.
O que você faz muda. Você já foi alguém que fazia coisas que hoje não faria, e daqui a vinte anos vai olhar para hoje e perceber que deixou de fazer coisas que está fazendo hoje. O comportamento é o que há de mais móvel em você. Se a sua natureza fosse o seu comportamento, você teria trocado de natureza várias vezes — e natureza que se troca não é natureza, é fase.
Então vamos fazer o caminho contrário. Em vez de perguntar o que o ser humano faz, vamos perguntar o que sobra quando tiramos tudo o que poderia ter sido diferente.
Seu corpo poderia ser outro. Seu nome, sua família, seu país, sua língua, sua religião, sua época — tudo isso poderia ter sido diferente sem que você deixasse de ser você. Sua personalidade se formou a partir do que aconteceu com você, e teria se formado de outro jeito se outras coisas tivessem acontecido. Suas memórias são o registro de um percurso; não são o caminhante.
Vá tirando. O que não puder ser tirado é a sua natureza.
Essa é a pergunta que abriu este livro e que eu pedi que você respondesse antes de continuar lendo.
E aqui está o ponto: você não tem escolha quanto a ter uma resposta. Todo mundo tem uma, formulada ou não. Ela está por baixo de como você se trata quando erra, do que você acha que merece, do que acredita ser capaz e do que nem tenta fazer. Você não precisa ter pensado no assunto para viver de acordo com a sua conclusão sobre ele.
Você já vive.
Por isso a resposta importa tanto. Se aquilo que você é, no fundo, for defeituoso, a sua vida inteira é um trabalho de conserto. Se for perfeito, a sua vida inteira é um trabalho de descoberta. O esforço é o mesmo. A direção é oposta.
Você acha que tem uma natureza defeituosa ou perfeita?
Vamos pensar juntos sobre isso por partes. Primeiro, o que se pode concluir sobre a Criação a partir do Criado. Depois, qual a nossa verdadeira natureza.
Criados perfeitos#
Deus, onipotente — todo-poderoso; onisciente — sabedoria máxima; onipresente — está em toda parte; onibenevolente — sumamente bom e soberanamente justo. E também único, indivisível, causa primeira de todas as coisas. Perfeito.
Essa é a visão de Deus usada como premissa para as conclusões a que iremos chegar. Certamente seguir o conteúdo deste livro pressupõe crença em Deus. Para os ateus, precisaríamos entender qual a definição de Deus, no qual não acreditam, para que pudéssemos discorrer a partir da verdade de que Deus não existe. Seria um caminho possível; este livro segue outro.
Esse Deus definido acima cria. Um ato de criação desconhecido por nós. Não sabemos como, mas podemos deduzir pela observação da Criação.
A Criação, vinda de Deus, absolutamente perfeito, só poderia ser perfeita. Essa é a única possibilidade.
Imperfeito significa algo que tem defeitos, está incompleto ou não foi totalmente terminado.
Como Deus, perfeito, pode criar algo imperfeito?
Essa possibilidade não existe. Partindo dessa premissa, assumimos que toda a Criação de Deus é perfeita.
Tudo é perfeito. O Universo é perfeito. A natureza é perfeita. Toda criação de Deus é perfeita.
Deus, perfeição pura, não criaria nada "incompleto", "defeituoso" ou "falho".
Só existe uma possibilidade: toda a Sua criação é perfeita.
Então agora entramos nós, humanos, na história. Nós somos parte da natureza. Sendo parte da natureza perfeita criada por Deus, por que então seríamos criados imperfeitos?
Só nos resta uma conclusão: fomos criados perfeitos.
Sendo assim, a sua essência, a consciência ou o mais íntimo do seu ser, é perfeita.
Por que isso é importante?
Porque muda a forma como você se enxerga, se sente e se conhece.
Repare que o argumento não pediu a sua opinião sobre si mesmo. Ele partiu de Deus e desceu até você. Não é gentileza que alguém está lhe fazendo, nem otimismo de autoajuda: é o que sobra depois de aceitar que o perfeito só pode criar o perfeito. Você não precisa se sentir perfeito para que isso seja verdade.
E se a sua essência é perfeita, então tudo aquilo que você não suporta em você está em outro lugar. Não na essência — no que se acumulou em volta dela. O temperamento difícil, o hábito que você não vence, a reação de que você sente vergonha depois: tudo isso é real, e nada disso é você na camada mais funda.
Olhe para o céu em um dia de verão ensolarado. O que você vê? O céu límpido, sem nuvens e o Sol brilhando.
Olhe para o céu em um dia de inverno chuvoso. O que você vê? Muitas nuvens, raios e chuva.
Isso quer dizer que o Sol sumiu neste dia escuro? Não!
Por trás das nuvens, dos raios, da chuva e da visão sombria, o céu está limpo e o Sol está lá igualzinho, brilhando com força.
Esse é você. Por trás do seu eu percebido por você agora, está a sua essência, perfeita, esperando por você e brilhando como sempre.
Repare no que essa conclusão faz e no que ela não faz.
Ela não faz de você alguém sem nada a corrigir. O comportamento continua sendo seu, e a responsabilidade também.
Ela faz com que a correção deixe de ser uma acusação. Você para de consertar um defeito de fabricação e passa a limpar uma janela.
E traz uma consequência imediata, que talvez seja a mais prática deste livro inteiro: você pode parar de esperar merecer.
Quem se julga defeituoso vive adiando. Adia a paz para quando estiver melhor, adia a alegria para quando tiver resolvido, adia a si mesmo para uma versão futura que não chega nunca — porque o critério sobe junto com quem sobe. Se a perfeição está no fim da fila, ninguém alcança.
Se ela está na origem, você já a tem. Deixa de ser prêmio e passa a ser ponto de partida.
Daqui sai a frase que sustenta o resto do livro:
A sua essência é perfeita. A sua manifestação é perfectível.
Perfeita porque veio de Deus. Perfectível porque ainda está a caminho, e o caminho é seu.
Falta entender de que essa essência é feita.
Feitos de Deus#
O Salmo 82 é de Asafe, e quem fala nele é Deus. Dirige-se aos que julgavam em Seu nome e julgavam mal, e no versículo 6 diz:
- "Eu disse: Vós sois deuses, e todos vós filhos do Altíssimo."
Séculos depois, Jesus cita este versículo. E o momento que ele escolhe para citá-lo é o que mais interessa aqui.
Está em João 10. É inverno, a festa da Dedicação, e ele caminha pelo pórtico de Salomão, no templo de Jerusalém. Os que o cercam pegam pedras para matá-lo, e dizem por quê: "pela blasfêmia; porque, sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo".
Acusado exatamente disso, Jesus responde com o salmo de Asafe:
"Não está escrito na vossa lei: Eu disse: Sois deuses? Pois, se a lei chamou deuses àqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida (e a Escritura não pode falhar), àquele a quem o Pai santificou e enviou ao mundo, vós dizeis: Blasfemas, porque disse: Sou Filho de Deus?"
— João 10:34-36. As citações bíblicas deste capítulo seguem a tradução de João Ferreira de Almeida, revista e corrigida.
Repare no que ele faz. Diante da acusação de estar se igualando a Deus, ele não recua, não corrige e não explica que era força de expressão. Faz o contrário: amplia. Vai buscar, na própria lei dos acusadores, o lugar onde seres humanos são chamados deuses — e observa que a Escritura chamou assim todos "aqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida".
Não um. Todos.
A leitura tradicional entende que o salmo fala em linguagem figurada, referindo-se à autoridade de julgar que vinha de Deus. É uma leitura legítima, e este livro não precisa negá-la.
A pergunta que fica é outra. Entre todas as passagens que poderia ter invocado para se defender de uma acusação de blasfêmia, por que Jesus escolheu justamente aquela em que Deus chama homens de deuses?
Seguindo o raciocínio da seção anterior, vamos dar um passo atrás e entender a nossa criação sob outro aspecto.
Antes de sermos criados, não existia nada além de Deus. O espaço e o tempo não existiam, nada existia, podemos dizer que era só Deus. O nada era Deus. O todo era Deus.
Se só existia Deus e Deus cria algo, consequentemente esse algo criado é essencialmente Deus. Não haveria algo a mais que Deus usaria como matéria para a sua criação: ela é feita a partir Dele próprio.
A Criação individualmente não pode ser o Criador, mas a Criação é feita do Criador. Sendo assim, a Criação é o Criador.
O conjunto de toda a Criação é o Criador.
Figurativamente, imagine que Deus seja um grande bloco de gelo. Uma marreta o atinge, e ele se parte em incontáveis lascas.
De forma bem simplista, assim é a Criação: Deus é o bloco, e nós, criaturas, somos as lascas.
Repare no que a imagem diz. Por menor que seja a lasca, ela é gelo — não é uma coisa parecida com gelo, nem feita de outro material.
Toda criação é uma expressão de Deus.
Tudo que existe é criado por Deus e é parte de Deus. É dessa forma que Deus se faz onipresente. A onipresença de Deus não é nada mais do que a presença de Deus em toda a Criação e em todas as criaturas.
Seguindo o raciocínio: nós existimos. Se existimos, fomos criados por Deus e, por consequência, somos essencialmente Deus. Em outras palavras, nossa essência é também Deus.
Agora feche o livro e olhe para a capa. Veja a onda no mar. Ela se levanta, avança e, ao ver a praia se aproximando, entende que vai acabar. A onda se sente como uma coisa entre outras, pois tem tamanho, tem forma, tem um começo e terá um fim.
Mas a onda não é uma coisa. A onda é um jeito que a água tem de se mover. E a água é o oceano.
Quando ela se desfaz na arrebentação, nada se perde e nada retorna — porque nada havia partido. O oceano apenas deixa de ter, naquele ponto, aquela forma.
A onda não volta para o oceano.
A onda descobre que ela sempre foi o oceano.
Em algum momento nós, seres humanos, vamos descobrir que sempre fomos Deus, da mesma forma que a onda sempre foi o oceano.
Somos uma expressão de Deus. Reconhecer essa natureza Divina em nós é transformador. É Divino!
A principal característica da natureza Divina é a ideia da perfeição. Perceba como este conceito está conectado com o anterior. Reconhecer a natureza Divina em nós é reconhecer a perfeição dentro de nós.
Se somos essencialmente Deus, tudo podemos, toda a força temos, toda a paz está presente e toda a felicidade já está conosco.
Por que, então, sofremos como seres humanos? Apenas nos esquecemos temporariamente dessa realidade. No dia em que nos lembrarmos de verdade, seremos transformados.
Um ser humano realizado — que vive plenamente, desenvolve o seu máximo potencial e encontra sentido em tudo — é aquele que se reconhece em Deus, em outras palavras, que se identifica com Deus.
Como fica esse conceito em relação às ideias de que somos "espíritos imperfeitos" e de que fomos criados simples e ignorantes? Vamos agora olhar para isso.
Simples e ignorantes#
Para o Espiritismo, o ser humano é um espírito encarnado, criado simples e ignorante, que evolui ao longo de sucessivas existências até alcançar a perfeição — o estado que a Doutrina Espírita chama de espírito puro.
Portanto, o ser humano seria:
- perfectível: imperfeito, mas destinado à perfeição.
- um espírito, e não Deus.
Não há como suavizar o choque. O que os dois capítulos anteriores deduziram — que fomos criados perfeitos, e que a nossa essência é Deus — contradiz, palavra por palavra, as duas linhas acima. Se a Doutrina estiver certa no sentido em que costuma ser lida, a revelação deste livro está errada.
E a objeção não é uma leitura apressada. Ela tem um argumento, e o argumento está n'O Livro dos Espíritos, na voz dos próprios Espíritos:
"Se tivessem sido criados perfeitos, não teriam nenhum mérito para desfrutar dos benefícios dessa perfeição. Onde estaria o mérito sem a luta?" — O Livro dos Espíritos, questão 119
Sem luta, não há mérito. É essa ideia que sustenta a frase que se ouve nos centros espíritas, e que talvez você também repita: "não somos perfeitos, somos perfectíveis".
E eu vou responder a isso nos próximos capítulos.
A resposta depende de uma leitura atenta da própria codificação, e eu quero fazer essa leitura com você depois que você tiver visto a mesma ideia aparecer em quatro lugares que nada têm a ver com Kardec — nem entre si. Antes disso, qualquer conciliação que eu oferecesse soaria como conveniência de quem argumenta.
Então guarde a objeção inteira, exatamente como ela está. Vamos buscar outras fontes, e voltamos a este ponto.
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