Uma revelação do Ser · Parte 1 · A tese
1.4
Mente aberta
Duas pessoas discutem futebol. Cada uma encontra, sem esforço, cinco argumentos a favor do seu time e nenhum a favor do outro — embora os argumentos dos dois lados existam, e estejam igualmente disponíveis para as duas.
Nada nisso tem a ver com futebol.
A partir do momento em que fazemos uma escolha e tomamos partido, a mente para de procurar a verdade e passa a defender sua ideia. É um jeito de proteger uma zona de conforto, e funciona: valorizamos demais o que escolhemos e desvalorizamos demais o que o outro escolheu. Quando alguém traz uma visão diferente, a mente dispara argumentos contra ela antes de recebê-la inteira.
Com política acontece o mesmo. Com religião também — e é aí que fica interessante.
A sua religião é a melhor para você. Se não fosse, não seria a sua. O problema é que "a melhor para mim" escorrega com facilidade para "a melhor", e a segunda frase diz outra coisa inteiramente. Não há religião pior nem melhor: a qualificação é relativa a quem a faz. Somos nós que, às vezes, nos identificamos demais com a escolha e agimos como se a nossa fosse superior.
Vou dar dois exemplos, os dois do Espiritismo. Escolhi essa religião para esses exemplos porque foi a que frequentei a maior parte desta vida — e porque apontar o exagero na casa alheia é fácil demais para servir de exercício. Se a sua tradição for outra, faça a tradução: os equivalentes existem em todas.
No Espiritismo, todos concordam que não existe religião melhor ou pior. É dito que
"a melhor religião é a que faz do homem o melhor",
e ainda assim ouve-se, de vez em quando:
"O espiritismo não é a religião do futuro, mas o futuro das religiões."
Leia a segunda frase logo depois da primeira. O que ela é, senão a crença de que as verdades espíritas são superiores às demais? O senso de superioridade está nas entrelinhas — e convive, sem constrangimento nenhum, com a máxima que acabou de ser citada.
O segundo exemplo eu ouvi inúmeras vezes:
"o problema da doutrina espírita é que traz muito dos conceitos católicos".
A frase não representa a comunidade espírita inteira, e muita gente discorda dela, evidentemente. Mas ela é dita — e, para quem veio do catolicismo, faz sentido: foi assim que sentiram a revelação do Espiritismo na própria vida.
Mas repare, ainda assim, no que ela faz. Chama de problema uma herança, e coloca o Espiritismo acima do catolicismo.
Agora peço que, por gentileza, leia a pergunta abaixo, interrompa a leitura por um instante, feche os olhos e volte-se para dentro.
O que a sua mente fez durante a leitura dos últimos parágrafos? Como reagiu ao que você acabou de ler?
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Talvez tenha discordado, montado argumentos, procurado onde a escritora estava errada. Talvez tenha concordado com entusiasmo e repetido as frases como quem confirma. Talvez tenha ficado quieta.
As três reações são naturais, e nenhuma delas é o ponto. O ponto é que você consegue ver a sua mente fazendo isso.
Foi para isso que os exemplos serviram. Eu precisava de algo que pudesse mexer com você para que houvesse o que observar.
Observe seus pensamentos. Sinta seu corpo. São os dois pré-requisitos, e bastam.
Mente aberta é a capacidade de ouvir de verdade: receber o que está sendo dito antes de julgar, e receber inteiro, em vez de já cortado no tamanho do que você pensa.
Com a mente aberta você parte do princípio de que outra escolha pode ser melhor que a sua. E aceita a possibilidade de que algo em que você acredita hoje deixe de ser verdade para você amanhã.
Isso não é fraqueza de convicção. É a condição de aprender qualquer coisa. Para evoluir precisamos deixar para trás algumas crenças, valores e atitudes.
O que vem a seguir é uma revelação sobre a nossa natureza — um assunto sobre o qual você já tem opinião formada, escolha feita e crença estabelecida. Convido você a uma leitura meditativa: observando os pensamentos e as emoções, sentindo as reações no corpo, e abrindo espaço para o que está por vir.
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