Uma revelação do Ser · Parte 2 · As confirmações
2.4
Patanjali
As fontes anteriores deste livro têm nome, rosto e data. Sabemos onde Carla Rueckert nasceu, o que Darryl Anka fazia da vida, em que aldeia Sai Baba cresceu.
Agora vamos falar de alguém sobre quem não sabemos praticamente nada.
Não sabemos quando viveu. Não sabemos onde. Não sabemos se era uma pessoa ou várias. E, ainda assim, o que ele escreveu há quase dois mil anos continua sendo, até hoje, um dos manuais mais precisos já produzidos sobre o funcionamento da mente humana e sobre o que existe atrás dela.
O nome é Patanjali.
Um homem sobre quem quase nada se sabe#
Sobre a pessoa histórica, os estudiosos discordam de quase tudo.
Há um Patanjali gramático, autor do Mahabhashya, um comentário monumental sobre a gramática sânscrita, situado com segurança em meados do século II antes de Cristo. E há o Patanjali dos Yoga Sutras. A tradição indiana diz que são o mesmo homem. A maior parte dos estudiosos modernos discorda: as duas obras diferem demais em vocabulário e em assunto.
Quanto à data dos Yoga Sutras, as propostas vão do século II antes de Cristo ao século V depois. O filólogo Philipp A. Maas, com base na comparação com textos budistas contemporâneos, situa a obra por volta do ano 400.
Ou seja: dois mil anos, mais ou menos alguns séculos.
O que a tradição preserva não é biografia, é lenda — e a lenda é bonita o bastante para merecer registro. Conta-se que uma yogini chamada Gonika, ao fim da vida e sem herdeiro para o seu conhecimento, rezou pedindo um filho a quem pudesse transmiti-lo. Enquanto orava com as mãos em concha, algo caiu ali. O nome vem daí: pata, aquilo que cai, e añjali, as mãos unidas em reverência.
Aquilo que caiu nas mãos oferecidas.
Diz-se também que era uma encarnação de Adi Shesha, a serpente cósmica sobre a qual repousa Vishnu.
Nada disso é história. Mas repare no que a lenda afirma, porque é coerente com tudo que veremos a seguir: o conhecimento não foi conquistado. Foi recebido pelas mãos que se abriram.
O que é um sutra#
Sutra significa "fio" — a mesma raiz da nossa palavra "sutura".
Um sutra é uma frase comprimida ao osso, feita para ser memorizada e depois desdobrada por um mestre. Nada de ornamento, nada de exemplo, nada de repetição. É um texto escrito para uma cultura sem imprensa, em que o livro era a memória de alguém.
Isso explica por que os Yoga Sutras são, ao mesmo tempo, curtíssimos e inesgotáveis. São 196 aforismos, divididos em quatro capítulos, que cabem em poucas páginas — e sobre os quais se escrevem comentários há dois milênios sem esgotar o assunto.
Os quatro capítulos são:
- Samadhi Pada, 51 sutras, sobre a absorção contemplativa e o que é o yoga.
- Sadhana Pada, 55 sutras, sobre a prática e sobre os obstáculos.
- Vibhuti Pada, 56 sutras, sobre os poderes que surgem no caminho — e sobre o perigo de se encantar com eles.
- Kaivalya Pada, 34 sutras, sobre a liberação.
E, antes de irmos adiante, um aviso necessário: o que se chama de yoga no Ocidente hoje — a aula de posturas — corresponde a um dos oito passos que Patanjali descreve: é uma porta de entrada, e o caminho continua além dela. O texto inteiro dedica três aforismos à postura física. Os outros 193 tratam de outra coisa.
Dois versos que contêm o livro inteiro#
Os Yoga Sutras começam sem cerimônia. O primeiro aforismo diz apenas: "Agora, o ensinamento do yoga."
O segundo é a definição, e é uma das frases mais importantes já escritas sobre a mente:
"Yoga é a cessação das flutuações da mente."
Pare nessa frase.
Ela não diz que yoga é conquistar algo. Não diz que é desenvolver um poder, alcançar um estado, adquirir uma virtude ou merecer uma graça. A palavra central, em sânscrito, é nirodha: cessação, contenção, aquietamento.
Yoga é definido pela subtração.
E o terceiro aforismo diz o que acontece quando essa subtração se completa:
"Então o Observador se estabelece em sua própria natureza essencial."
Leia devagar. Sua própria natureza. Não uma natureza nova, não uma natureza melhor, não uma natureza conquistada com esforço. A que já era dele.
O quarto aforismo fecha o raciocínio explicando o que acontece no resto do tempo, que é onde você e eu passamos a vida:
"Nas demais ocasiões, o Observador se identifica com as flutuações."
Aí está o diagnóstico completo, em três frases. Você não perdeu a sua natureza. Você a confundiu com o barulho que passa por cima dela.
Imagine um lago agitado. Enquanto a água se move, você não vê o fundo — vê ondas, reflexos, fragmentos de luz quebrada. Aquiete a água e o fundo aparece. Ele estava lá o tempo todo. Não foi construído pelo aquietamento.
Purusha e Prakriti#
Para sustentar isso, Patanjali trabalha com uma distinção herdada da filosofia Samkhya, e ela é o coração deste capítulo.
Existem duas categorias, e apenas duas.
Prakriti é a natureza. Tudo o que muda, tudo o que se move, tudo o que tem forma. O corpo é prakriti. As emoções são prakriti. E aqui está a parte que costuma surpreender: a mente também é prakriti. Os seus pensamentos, as suas memórias, a sua inteligência, a sua personalidade — tudo isso é natureza, é matéria sutil, é coisa que acontece.
Purusha é a consciência pura. O que observa tudo isso. E purusha não faz nada: não pensa, não deseja, não age, não evolui. Apenas testemunha.
Se você acompanhou o capítulo anterior, já reconheceu o desenho. Purusha é o Atma sob outro nome, dentro de outro sistema filosófico.
E agora a afirmação decisiva de todo o sistema:
Purusha nunca esteve preso.
Nunca. Em momento nenhum. A liberdade não é um estado a alcançar, porque a consciência pura jamais foi limitada por coisa alguma. O que existe é uma confusão: purusha se vê refletido nas ondas de prakriti e conclui que é uma onda.
O sofrimento humano inteiro, para Patanjali, é um erro de identificação.
Avidya: o erro fundamental#
Patanjali dá nome aos cinco venenos que sustentam esse erro, e os chama de kleshas, as aflições:
- Avidya — a ignorância, e a raiz de todas as outras.
- Asmita — a identificação com o ego, a certeza de ser este personagem.
- Raga — o apego àquilo que agrada.
- Dvesha — a aversão àquilo que desagrada.
- Abhinivesha — o apego à própria vida, o medo da morte.
Os quatro últimos nascem do primeiro. E o primeiro, Patanjali define assim:
Avidya é tomar o que é impermanente por permanente, o impuro por puro, o sofrimento por prazer, e o não-eu por eu.
Guarde essa última parte, porque é a mais importante deste capítulo inteiro.
Tomar o não-eu por eu. Avidya, a raiz de todo sofrimento humano segundo esse sistema, é confundir aquilo que você não é com aquilo que você é. É olhar para as ondas — o corpo, a personalidade, a história, os defeitos, as feridas — e dizer "isto sou eu".
A limitação está em você acreditar que é imperfeito.
Os oito passos#
O caminho que Patanjali propõe tem oito membros, o ashtanga, e eles não são etapas sucessivas: são oito frentes que se sustentam mutuamente.
Os dois primeiros são éticos, e vêm antes de qualquer prática:
- Yama, os cinco compromissos com o mundo: não-violência, veracidade, não roubar, moderação e não acumular.
- Niyama, os cinco compromissos consigo: limpeza, contentamento, disciplina, autoestudo e entrega ao Divino.
Depois vêm:
- Asana, a postura firme e confortável.
- Pranayama, a regulação da respiração.
- Pratyahara, o recolhimento dos sentidos.
- Dharana, a concentração.
- Dhyana, a meditação sustentada.
- Samadhi, a absorção.
Note a ordem, porque ela é uma declaração de princípios. A postura só aparece em terceiro, depois de dez compromissos morais. No sistema de Patanjali, a via contemplativa começa por resolver como você trata as outras pessoas.
Compare com os cinco valores humanos de Sai Baba, no capítulo anterior. São praticamente a mesma lista.
Kaivalya#
O último capítulo trata da meta, que Patanjali chama de kaivalya.
A palavra costuma ser traduzida como "liberação", mas o sentido literal é outro: significa isolamento, no sentido de independência absoluta. É purusha deixando de se confundir com prakriti. A consciência reconhecendo que nunca foi nenhuma das coisas que passam por ela.
E repare no que kaivalya não é.
Não é uma recompensa. Não é um lugar. Não é um prêmio por bom comportamento. Não é algo que você recebe de fora, nem um estado novo que passa a existir.
É o fim de um mal-entendido.
Nada foi acrescentado a você quando ele termina. Alguma coisa apenas parou de ser confundida com você.
O que Patanjali confirma do que já vimos#
A inversão muda tudo: se fomos criados imperfeitos, precisamos agregar o que nos falta; se fomos criados perfeitos, precisamos dispensar o que não serve mais. É o que os iogues chamam de voltar para casa.
Patanjali define yoga, no segundo aforismo do livro, como nirodha — cessação. Não como aquisição. Dois mil anos antes, o mesmo movimento: tirar, não pôr.
Isso não quer dizer que não haja trabalho. Poucos aforismos adiante, Patanjali diz como a cessação acontece: pela prática e pelo desapego, abhyasa e vairagya. E pede que a prática seja sustentada por muito tempo, sem interrupção e com dedicação. O esforço é real, e dura a vida inteira. Só que é esforço de tirar.
Escrevemos que a essência é perfeita e a manifestação é perfectível. Patanjali separa purusha, que jamais esteve preso e nada precisa aprender, de prakriti, que é onde tudo acontece e tudo se transforma. A mesma divisão, com outros nomes.
A crença "eu sou imperfeito" é limitante, e talvez seja justamente ela que precisa ser eliminada. Patanjali chama isso de avidya, coloca-a como raiz de todas as aflições humanas, e a define exatamente como o ato de tomar o não-eu por eu.
E usamos a imagem do Sol atrás das nuvens: o céu escuro não apagou o Sol, apenas o encobriu.
Patanjali usa o lago. Bashar usa o gelo. Ra usa o prisma. Sai Baba usa a respiração.
Cinco imagens, e todas dizem a mesma coisa: o que você é não foi embora. Está por baixo.
E agora, uma vez mais, a pergunta que abriu este livro.
Qual é a verdadeira natureza do ser humano?
Ra respondeu "Vós sois". Bashar, "Você existe". Sai Baba, "Encarnações do Divino Atma".
Patanjali respondeu no terceiro aforismo, antes de ensinar qualquer prática — e não ofereceu nada de novo. Apontou para o que já estava ali, debaixo da água agitada:
O Observador, em sua própria natureza.
Quatro testemunhas foram estudadas, nenhuma delas sabendo das outras. Agora, sim, podemos voltar para casa — e reabrir a objeção que ficou guardada.
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