Uma revelação do Ser · Parte 2 · As confirmações

2.1

Ra: A Lei do Uno

Em 15 de janeiro de 1981, numa casa em Louisville, no estado do Kentucky, uma mulher conduzia um exercício de canalização com um aluno. Era uma tarde comum de trabalho, o mesmo trabalho que ela vinha fazendo havia sete anos.

E então uma voz falou através dela, dizendo algo que ninguém naquela sala tinha ouvido antes:

"Eu sou Ra."

Do que se seguiu nasceram 106 conversas, ao longo de três anos, que hoje conhecemos como A Lei do Uno.

Antes de chegarmos ao conteúdo, precisamos conhecer as pessoas. Porque o modo como esse material chegou até nós é inseparável do que ele diz.

O professor de física#

A história começa duas décadas antes, e começa com um cético.

Don Elkins era professor de física na Universidade de Louisville. Nos anos 1950 e 1960, enquanto lecionava, dedicava seu tempo livre a investigar fenômenos que a física não explicava: aparições, memórias de outras vidas, avistamentos de objetos não identificados. Não como devoto. Como pesquisador.

Em 1961, chegou às suas mãos a transcrição de um grupo de canalização de Detroit. Don não aceitou aquilo como verdade. Fez o que um físico faria: tentou reproduzir o experimento. Reuniu doze estudantes de física e formou um grupo de meditação, com um objetivo declarado — estabelecer contato com o que aquelas transcrições chamavam de Confederação dos Planetas a Serviço do Criador Infinito.

Repare no que ele fez. Diante de uma afirmação extraordinária, não escolheu entre acreditar e descartar. Escolheu testar.

A bibliotecária#

Em 1962, uma jovem entrou naquele grupo quase por acaso: era namorada de um dos estudantes.

Carla Lisbeth Rueckert tinha dezoito anos. Nascera em Lake Forest, Illinois, em 16 de julho de 1943. Formou-se em Literatura Inglesa pela Universidade de Louisville em 1966, e depois em Biblioteconomia, em 1971. Trabalhou seis anos como bibliotecária.

Um bom currículo para alguém que viria a ser instrumento de um dos textos espirituais mais densos do século XX. E talvez seja exatamente esse o ponto.

Carla era uma cristã devota, de fé mística e sincera, e permaneceu assim até o fim da vida. Nunca abandonou sua religião para acolher o que recebia. As duas coisas conviviam nela sem conflito, algo que este livro inteiro procura defender.

Ela meditou naquele grupo por doze anos sem canalizar nada. Foi só em 1974, quando os outros estudantes já haviam seguido suas vidas, que começou. E, tendo começado, não parou mais: canalizou por trinta e sete anos, até 2011, quando uma cirurgia na coluna a impediu.

Em 1968, Carla e Don tornaram-se parceiros de pesquisa. Em 1970, fundaram a L/L Research, que existe até hoje e distribui todo o material gratuitamente.

O terceiro#

Faltava alguém, e ninguém sabia disso.

Em 1980, Jim McCarty vivia sozinho numa área rural do Kentucky, numa casa que construíra com as próprias mãos. Ouviu Don e Carla numa entrevista de rádio. Procurou-os. Acabou se mudando para a casa deles para participar da pesquisa.

Vinte e três dias depois de Jim se instalar, Ra apareceu.

Os três nunca trataram isso como coincidência. E aqui está o primeiro fato estranho desse contato: ele exigia exatamente aquelas três pessoas. Se uma faltasse, não acontecia. Não era Carla que canalizava Ra. Eram os três, juntos, que sustentavam a possibilidade do contato.

Cada um tinha um papel, e Ra os nomeava assim: Carla era o instrumento, quem se oferecia. Don era o questionador, quem perguntava. Jim era o escriba, quem registrava e sustentava a energia do grupo.

Sem pergunta, não havia resposta. O material é, do começo ao fim, uma conversa, e sua qualidade dependia da qualidade das perguntas de Don. Te lembra algo? O Livro dos Espíritos foi escrito nas mesmas bases: perguntas e respostas.

O processo#

Carla não canalizava Ra acordada. Em todos os outros trabalhos dos seus trinta e sete anos, ela canalizava em estado consciente: ouvia, formulava, entregava. Com Ra, não. Com Ra, ela entrava em transe profundo.

E transe profundo, no vocabulário do grupo, não significava sono nem desmaio. Eles descobriram, na prática, que existe uma diferença entre estar inconsciente com o complexo mente/corpo/espírito presente e o estado em que esse complexo simplesmente não está ali.

Carla saía. E Carla não voltava com lembrança alguma.

Ela só conheceu o material que passou por ela lendo as transcrições depois. Foi instrumento no sentido mais literal da palavra: o violino não sabe a música.

A preparação de cada sessão era cuidadosa e sempre igual. Carla se deitava, com os olhos cobertos e o microfone posicionado. Ao redor dela, o grupo dispunha um cálice virgem com água junto à sua cabeça, a Bíblia aberta no primeiro capítulo do Evangelho de João, incenso em um incensário nunca antes usado e uma vela branca.

Antes disso, havia o que eles chamavam de sintonização. Oração, canto, visualização de luz branca, leitura inspirada. O objetivo não era místico por capricho: era elevar e estabilizar a vibração do grupo, porque o contato dependia disso.

E havia o desafio à fonte. Carla desenvolveu, ao longo dos anos, o hábito de exigir que qualquer entidade que se apresentasse declarasse servir a Cristo. Não como fórmula religiosa, mas como filtro. Ela desafiava em nome daquilo que amava acima de tudo. Quem não pudesse sustentar aquele padrão não passava.

Isso merece atenção. Todo o cuidado ritual daquele grupo existia por uma razão prática: nem tudo que fala do outro lado fala a verdade. Discernimento não é desconfiança. É responsabilidade.

Ra descrevia o próprio contato como de banda estreita. Uma faixa muito fina de sintonia, que exigia pureza de intenção e se perdia com facilidade.

Cada sessão abria do mesmo jeito: "Eu sou Ra. Saúdo-vos no amor e na luz do Criador Único e Infinito."

E terminava quando a energia vital de Carla se esgotava. Era Ra quem avisava. O corpo dela pagava o preço de cada sessão, e o grupo aprendeu a respeitar esse limite, mesmo quando a pergunta seguinte parecia importante demais para esperar.

Quem Ra dizia ser#

Ra não se apresentava como uma pessoa.

Dizia ser um complexo de memória social: não um indivíduo, mas a consciência unificada de todo um planeta que evoluiu junto, a ponto de suas memórias serem uma só. Situava-se na sexta densidade, e dizia ter vindo, muito tempo atrás, do planeta que chamamos de Vênus.

E dizia algo mais, que muda o tom de tudo: que já havia estado aqui antes, no Egito, há milhares de anos, tentando ajudar, e que fracassara. Que seus ensinamentos foram distorcidos, transformados em culto, em hierarquia, em poder sobre pessoas. Ra considerava isso uma dívida sua. O contato de 1981 era, em suas palavras, uma tentativa de reparar aquela distorção.

Guarde essa informação. Uma inteligência de sexta densidade admitindo erro e voltando para corrigi-lo diz sobre a natureza da evolução espiritual mais do que muitos tratados.

O fim#

A última sessão, a de número 106, aconteceu em 15 de março de 1984.

Don Elkins vinha em declínio havia cerca de um ano. Morreu em 7 de novembro de 1984. Com ele, encerrou-se definitivamente o contato: não havia mais questionador, e sem os três não havia Ra.

Carla seguiu o trabalho por mais três décadas, ao lado de Jim, com quem se casou. Enfrentou dores severas e longos períodos acamada. Partiu em 1º de abril de 2015.

Os três nunca cobraram por aquele material. Ele está disponível de graça, na íntegra, até hoje.

A Lei do Uno em uma frase#

Na primeira sessão, Ra disse uma frase que resume tudo o que viria depois:

"Vós sois todas as coisas, todo ser, toda emoção, todo acontecimento, toda situação. Vós sois unidade. Vós sois infinitude. Vós sois amor/luz, luz/amor. Vós sois."

Leia de novo, devagar.

Não está dito que você é parecido com Deus. Não está dito que você tem uma centelha divina dentro de si. Está dito que você é.

E note o verbo final, sozinho: "Vós sois." Sem complemento. Exatamente como escrevemos no capítulo Ser: Deus É, e nós Somos.

Os olhos do Criador#

Se tudo é o Criador, por que existe uma criação?

A resposta de Ra é de uma simplicidade desconcertante: o Criador busca conhecer a Si mesmo.

Uma consciência infinita e única não tem como se ver de fora. Não há espelho, não há outro, não há distância. Para se conhecer, ela precisa se tornar muitos, e experimentar-se através de cada um desses muitos.

Você é um dos olhos com que o Criador se observa.

Cada vida que você viveu, cada dor que atravessou, cada alegria, cada escolha equivocada e cada acerto: tudo isso é o Criador conhecendo uma faceta de Si mesmo que só poderia ser conhecida assim, por dentro, sendo você.

Isso reposiciona completamente o sentido do sofrimento. Ele deixa de ser castigo e deixa de ser erro de projeto. Passa a ser experiência colhida.

As três distorções primordiais#

Aqui Ra usa uma palavra que precisamos examinar com cuidado, porque ela é a chave deste capítulo inteiro.

Ra não fala em imperfeições. Fala em distorções.

Para Ra, existe a unidade indiferenciada, e existe tudo o mais, que são distorções dessa unidade. Distorção, no vocabulário dele, não significa defeito. Significa uma inclinação, um ângulo, um modo particular pelo qual o Uno se expressa. Como a luz branca que atravessa um prisma e vira cor.

A cor não é um erro da luz. É a luz vista de um jeito.

Da unidade original vêm, nesta ordem, três distorções primordiais:

  • A primeira distorção é o Livre-arbítrio. Antes de qualquer coisa, a liberdade de escolher. É por isso que o Criador não interfere, não corrige e não impede. Não por descaso, mas porque a interferência anularia o próprio experimento.
  • A segunda distorção é o Amor, que Ra também chama de Logos, o Princípio Criador. É o Livre-arbítrio ganhando foco e direção. É a energia inteligente que decide criar deste modo e não de outro.
  • A terceira distorção é a Luz, que é o material de que tudo se faz. A matéria que você toca é luz organizada em determinada vibração.

Livre-arbítrio, Amor, Luz. Depois dessas três, diz Ra, todas as demais distorções são iguais entre si em importância. Nenhuma vale mais que outra.

As densidades#

Ra descreve a evolução da consciência em oito degraus, que chama de densidades. Não são lugares. São estados de percepção, faixas de vibração em que uma consciência consegue existir.

  • Primeira densidade é a da consciência elementar: terra, ar, água, fogo. A matéria tomando forma.
  • Segunda densidade é a do crescimento. A vida biológica surge e se complexifica. Plantas e animais aprendem a se mover em direção à luz.
  • Terceira densidade é a da autoconsciência. É onde você está agora. É nela que se faz a Escolha, que Ra chama de "o eixo sobre o qual a criação gira".
  • Quarta densidade é a do amor e da compreensão. Os seres que a alcançam formam complexos de memória social, consciências que se unem sem se anular.
  • Quinta densidade é a da luz e da sabedoria.
  • Sexta densidade é a da unidade, onde amor e sabedoria deixam de ser duas coisas. É onde Ra dizia estar.
  • Sétima densidade é o portal, onde a individualidade se dissolve de volta no Uno.
  • Oitava densidade é ao mesmo tempo fim e começo: o retorno ao Criador central e o nascimento de uma nova oitava.

O Livro dos Espíritos tem a sua própria escala, dos espíritos imperfeitos aos puros, com a reencarnação em mundos cada vez mais perfeitos à medida que o espírito se depura.

A terceira densidade é a densidade da Escolha#

Este é o ponto mais prático de todo o material, e o mais desconfortável.

Segundo Ra, a terceira densidade existe para uma finalidade única: fazer a Escolha. E há apenas dois caminhos.

O serviço aos outros é o caminho de quem se orienta para o cuidado com o próximo. O serviço a si é o caminho de quem se orienta para o poder sobre o próximo.

Os dois evoluem. Essa é a parte que costuma chocar. Ra afirma que ambas as polaridades levam adiante, porque ambas são escolhas conscientes e sustentadas, e o que não faz avançar é o morno, a indiferença, o não escolher.

Mas os dois caminhos não têm o mesmo custo. Para se graduar pelo serviço aos outros, basta uma orientação de pouco mais da metade. Para se graduar pelo serviço a si, é preciso quase a totalidade. Amar é mais fácil do que dominar, e é por isso que o caminho do bem é o caminho natural.

E há mais: na sexta densidade, diz Ra, os seres que escolheram o serviço a si descobrem que não conseguem aprender as lições da unidade sem abrir o coração. E mudam de polaridade.

Ou seja: o caminho do serviço a si chega, no fim, a um beco. Todos voltam.

O catalisador#

Se tudo é o Criador se conhecendo, o que fazemos aqui com a dor?

Ra chama isso de catalisador.

Catalisador é tudo o que a vida lhe apresenta e que exige uma resposta sua. A doença, a perda, a traição, a paixão, a injustiça sofrida e a cometida. Nada disso é a lição. Tudo isso é o material bruto a partir do qual a lição é feita.

Duas pessoas atravessam a mesma perda. Uma endurece, outra se abre. O catalisador foi idêntico. O que diferiu foi o que cada uma fez com ele.

Isso devolve a você um poder que a leitura passiva do sofrimento havia tirado. Você não escolhe todo o catalisador que recebe. Você escolhe integralmente o que faz com ele.

O que Ra confirma do que já vimos#

Volte agora à palavra que examinamos há pouco.

Ra não diz que somos imperfeitos. Ra diz que somos distorções do Uno.

E distorção, no sentido que ele dá, não é falha. É a luz atravessando o prisma. É o infinito se dobrando para caber numa experiência.

Repare no que isso faz com o argumento que construímos nos capítulos anteriores. Dissemos que Deus, sendo perfeito, não poderia criar nada defeituoso, e que portanto fomos criados perfeitos, simples e ignorantes. Dissemos que a evolução não é agregar o que falta, mas dispensar o que não serve mais.

Ra diz exatamente isso, com outras palavras. Não há defeito a consertar. Há distorções a desfazer, até que reste a luz sem prisma.

E isso não dispensa o trabalho. A terceira densidade existe para a Escolha, e escolher — e sustentar a escolha, vida após vida — é a tarefa mais séria que Ra descreve. O mérito existe. Só que ele está em escolher, e não em consertar um ser que teria vindo com defeito.

E quando Ra afirma "Vós sois unidade, vós sois infinitude, vós sois", ele responde à pergunta que abriu este livro com uma clareza rara.

Qual é a verdadeira natureza do ser humano?

Ele disse em duas palavras.

Vós sois.

Voltar ao sumário

Leu algo que ficou com você? Deixe uma palavra no livro de visitas.